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Adotar Amar Viver

Somos uma família católica que investe no tempo de família, aprendendo e ensinando, amando e vivendo com simplicidade. Somos o Álvaro e a Olívia, a Margarida, a Maria e a Lúcia!



Quarta-feira, 22.02.17

A Ana Lúcia

Nos anos 80, lá na aldeia apenas havia uma escola primária, não havia jardim escola ou creche. A vida era outra e os pais e os avós conseguiam ficar connosco até aos seis anos. 

 

Não sei muito bem de quem foi a ideia, mas emprestaram uma casa antiga e a junta de freguesia instalou lá aquilo que hoje a ASAE fecharia num minuto de visita, uma pré escola sem grandes condições, mas que foi o delírio de pais e crianças na altura. 

 

Utilizávamos uma sala na entrada para fazer os "trabalhos" que tinha mesas e cadeiras pequeninas, as professoras pintaram nas paredes figuras dos contos de fadas e havia também uns quadros para afixar as obras de arte. Nem sei se havia uma casa de banho para meninos e meninas ou se era a mesma. Algumas portas permaneciam fechadas, eram quartos que poderiam ser mil e uma coisas dependendo da imaginação de cada um... havia também um quintal onde podíamos brincar tempos sem fim, com areia e água e alguns brinquedos.

 

Não havia cantina! As nossas mães/avós/vizinhas levavam as comidas já quentes na hora do almoço e comíamos nas mesmas mesas de "trabalho". Os meninos da minha idade foram os primeiros a estrear esta bela pré escola, mas como naquele tempo as coisas eram bem mais simples, também andavam lá meninos mais novos. 

 

A Ana Lúcia era uma destas meninas, dois anos mais nova do que eu e muito engraçada... era bastante teimosa, tenho pena de não guardar mais recordações dessa idade, mas era demasiado criança... um dia, a bela da rapariga embirrou que só comia a canja se a professora lhe despejasse os morangos lá dentro. Bem dito, bem feito!!! Foi uma galhofa total!!!

 

Mas, numa tarde de inverno, ao sair do autocarro na paragem com a mãe, a Ana Lúcia foi a correr para casa que era do outro lado da estrada, fugiu da mão da mãe e correu... 

 

O camião que vinha em sentido contrário não a viu por causa do autocarro que estava estacionado e atropelou a menina. Foi um dos dias mais negros da aldeia. A Ana Lúcia tinha cinco anos e não resistiu aos graves ferimentos. A aldeia inteira chorou esta menina no seu funeral, o primeiro a que fui.

 

Nós éramos crianças. As crianças não deviam morrer. A Ana Lúcia também não.

 

Durante anos e anos permaneceu uma tristeza enorme por causa deste acidente, pouco a pouco os dias foram passando, os seus pais tiveram outros dois filhos e estes foram crescendo. De vez em quando lembro-me da Ana Lúcia, a primeira amiga que perdi.

 

Mas, na semana passada, todos os dias me lembrei dela. Todos os dias sentia no peito uma saudade e uma sensação esquisita. No sábado passado dia 18-02-2017, decidi ir ao cemitério, ao pé da pequena campa dela, rezar uma Avé Maria, conversar com ela.

 

Quando lá cheguei vi que a Ana tinha morrido no dia 18-02-1987, fazia nesse mesmo dia 30 anos que ela foi para o céu. E, não sei bem como, nunca percebi que ela nasceu e morreu em fevereiro... até à semana passada... e hoje seria o dia do seu aniversário!

 

O que passou, ficou no passado, dizem. 

 

Mas não é a soma de acontecimentos que vamos vivendo que faz de nós o que somos hoje? São momentos, vivências, sentimentos que fazem de nós esta pessoa que hoje somos e não outra... eu não quero viver presa ao passado, mas tenho em mim memórias que o tempo não apaga...

 

 

 

 

 

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por Olívia às 14:43


1 comentário

De A rapariga do autocarro a 22.02.2017 às 15:17

Somos mesmo uma soma daquilo por que passámos. e esses acontecimentos deixam-nos marcas! Quando era miúda também passei pela perda de duas crianças vizinhas, lembro-me tanta vez delas!

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