Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Adotar Amar Viver

Somos uma família católica que investe no tempo de família, aprendendo e ensinando, amando e vivendo com simplicidade. Somos o Álvaro e a Olívia, a Margarida, a Maria e a Lúcia!



Quarta-feira, 28.06.17

"Amanhã já não venho"

As férias de verão nos anos noventa podiam ser aborrecidas, mas nunca seriam tão aborrecidas como as destes anos, e porquê? Muito simples, naqueles anos ninguém ficava fechado em casa lá na aldeia!

 

A meio da manhã já os grupos se juntavam na rua, à sombra, para conversar, jogar às cartas... andar de bicicleta, enfim, para passar o tempo! Raramente ficávamos em casa a ganhar neura, porque em casa também havia uma lista de tarefas a fazer que os nossos pais nos deixavam. Desde arrumar a cozinha, varrer o chão, regar as flores... oh tanta coisa que era preciso fazer... 

 

Mas, houve um verão em que as coisas mudaram. A minha mãe, que costumava fazer as campanhas de vindima e tomate, sugeriu que também eu me juntasse ao "rancho", andavam lá alguns jovens e ganhávamos bom dinheiro (eram pouco, mas eu nunca tinha ganho nenhum) o meu grande objetivo era comprar as sapatilhas da moda: umas All Star azuis e brancas.

 

Assim foi.

 

Do alto dos meus catorze/quinze anos e bem vestida para um dia de trabalho debaixo de sol intenso: com calças de fato de treino, camisola de manga curta, camisa fina de manga comprida (dizem as pessoas mais velhas que: "o que guarda o frio, guarda o calor") e chapéu de palha com aba larga, juntei-me ao grupo.

 

Íamos num banco de madeira preso com umas cordas na parte de trás de uma carrinha de caixa aberta, ao vento. Quando chegámos demos o nome, e fomos distribuídos pelas carreiras com um/a parceiro, no início ia com a minha mãe para ver como era. 

 

Uma de cada lado da carreira das cepas, íamos cortando cacho a cacho e colocando numa espécie de "caneco" grande com cerca de 40 centímetros de altura e de diâmetro, quando estava cheio a colega da outra carreira que ia no mesmo "corredor" que nós parava para nos ajudar a equilibrar o caneco e colocá-lo sobre a cabeça, depois era só ir até ao trator, subir uns degraus e desejar a uva lá para dentro sem deixar cair o caneco. E assim íamos andando para a frente... as mais velhas não gostavam que os miúdos lhes passassem à frente, e a competição era bastante animada! Era preciso ter cuidado com: a) não cortar um dedo em vez do cacho e b) não agarrar num vespereiro em vez de um cacho.

 

Havia um capataz que conhecia bem a vinha, era ele que nos organizava e que ia vendo se não deixávamos uvas para trás, pouco antes do meio dia, mandava alguém acender o lume para os grelhados - nós já levávamos tudo feito era só aquecer - eu comia num instante para poder dormir cerca de meia hora. E se custava de manhã, à tarde era um tormento, muito calor, a água já não estava fresca... o cansaço era terrível.

 

E eu dizia sempre "amanhã já não venho!" Mas ia, até ao fim!

 

A melhor parte era quando a "aguadeira" passava com água numa quarta, tirada do poço, tão fresca... eu, que não bebia do mesmo copo de esmalte onde os outros bebiam porque levava uma garrafa, não resistia... a sede era muita, o calor pavoroso!

 

Na esperança de que passasse uma pequena aragem as mulheres diziam bem alto "Oh S. Lourenço mandai o ventinho para as gentes do trabalho" e logo o vento se fazia sentir, mas não podíamos abusar da boa vontade do S. Lourenço, por isso íamos dizendo de tempos a tempos...

 

O melhor dia da semana era a sexta feira, depois do trabaho, sentávamo-nos à espera que chamassem pelo nosso nome, para nos darem um envelope com o nosso ordenado, dizíamos quantos dias eram, confirmava-se o valor e trazia-se o envelope... ah... e havia sempre um gelado que era comprado a caminho de casa!

 

Além das campanhas da vindima, fiz também a do "tomate à grade" (cada um ia enchendo as suas grades e depois quanto mais enchessemos, mais recebíamos, nessa altura só trabalhava meio dia, contentava-me com esse dinheiro, e à tarde a malta nova dormia a sesta!), fiz também a de pimento (eu ficava no armazém a cortar e a tirar as sementes do pimento para ir para a fábrica enquanto algumas mulheres iam apanhando lá fora), e fiz vindima de uva de mesa (detestei aquilo... além de apanhar as uvas tínhamos de "enfeitar" umas pequenas grades e cestas para venda, os cachos eram bem arrumadinhos, sem parras, sem uvas estragadas... a minha mãe fazia aquilo na perfeição, mas as minhas ficavam muito feiazitas!)

 

Era bastante cansativo, mas no fim das férias estava desejosa de voltar à escola, gostei muito de conhecer outros jovens que vinham de fora com as famílias para as campanhas, nunca mais soubemos nada uns dos outros porque apesar de trocarmos moradas, nunca escrevíamos as prometidas cartas...

 

Quanto às sapatilhas tão esperadas... acabei por não as comprar logo... é que o dinheiro custava tanto a ganhar que tinha de ser bem gasto, depois de ajudar a comprar os livros da escola, os materiais aí sim, comprei as minhas primeiras e únicas All Star azuis e brancas!

 

Hoje em dia, a maioria das vindimas são feitas com máquinas, assim como a apanha do tomate, apenas algumas vinhas familiares ainda têm um rancho de gente que dia após dia recomeça com alegria esta dura tarefa!

 

original.jpg

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Olívia às 08:46


1 comentário

De Bruxa Mimi a 29.06.2017 às 19:07

Nunca tive qualquer experiência deste tipo. Gostei bastante de ler sobre a tua!

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisa de temas

Pesquisar no Blog  

calendário

Junho 2017

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
252627282930


Frases nossas

«Mais do que um processo judicial ou burocrático adoptar é amar uma criança e torná-la nossa filha»

Fale connosco através de

olivia.adocao@sapo.pt