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Somos uma família católica que investe no tempo de família, aprendendo e ensinando, amando e vivendo com simplicidade. Somos o Álvaro e a Olívia, a Margarida, a Maria e a Lúcia!



Quinta-feira, 31.07.14

História XVIII o debate

O debate judicial

 

...

«Eis então chegado o dia do debate judicial, que não é mais do que uma forma de se decidir qual é o "supremo interesse da criança", temos uma família biológica, uma instituição e uma família amiga (aqui somos mesmo a  3ª e última hipótese, graças ao Sr.. Procurador que teve a sensibilidade de nos chamar para este debate, caso não o tivesse feito nunca poderíamos ter a hipótese de ficar com a Gui. 

Pressupõe-se que a audição dos convocados é feita individualmente pelo que quando eu entrasse o meu marido ficaria cá fora e vice-versa, o que eu não tinha noção era se a família biológica se cruzaria connosco, de todas as formas fomos "avisados" para não responder a provocações, manter o "nível" e acima de tudo ignorar alguma coisa que fosse dita. De notar que a Gui também seria ouvida, mas iria com a sua tutora legal (da instituição) uma vez que a idade já o permitia.

 

Nesse dia acordámos cedo, nervosos e cheios de ansiedade. Estávamos em Março de 2008 e eu estava grávida de 5 meses, que se notavam e muito! 

 

Chegámos ao tribunal e não se via praticamente ninguém. 

Aquilo que se passou a seguir apenas merece umas breves linhas porque só de pensar nisso me agonia e me deixa muito triste, mesmo antes de dar conta aparece a dita senhora, chamada progenitora (não confundir com mãe, pois a mãe cuida dos seus filhos) e começa a disparar impropérios por todos os lados, que nós lhe queríamos roubar a filha, que a filha era dela, que lhe estávamos a desgraçar a vida, que me matava a mim e ao bebé, e por aí fora... naquele átrio só se ouvia a mulher histérica a gritar, a gritar cada vez mais... apenas uma pessoa ficou ao pé da porta a ouvir, todas as outras pessoas dispersaram, nós já íamos avisados, mas confesso que nunca pensei que fosse assim. Só tínhamos vontade de lhe dar um par de estalos, mas o meu marido apenas pediu que se chegasse para trás, uma vez que eu estava sentada e ela estava praticamente em cima de mim.

Nesse momento ouvem-se chamar uns nomes no piso de cima, entre os quais o dela, deixámo-la ir e depois de ouvirmos também os nossos  lá fomos... a tentar recuperar do sucedido.

 

(bolas que está a ser difícil escrever este texto)

 

Neste momento apenas estava com medo pela Gui, por aquilo que esta senhora lhe dissesse quando a encontrasse ali no tribunal, pelas ameaças, mas um olhar para as técnicas da instituição deu-me a sensação que a coisa estaria controlada, tudo fariam para que elas não se cruzassem.

 

Foram ouvidas algumas pessoas, que eu não conhecia, depois o meu marido, depois a Gui, que passou por nós "camuflada" pela capa negra da escrivã e que ia escondida, apenas eu e o meu marido demos por ela passar...depois entrei eu enquanto ela saía para uma sala contígua à nossa e lá ficava escondida protegida.

 

Lá dentro foi tudo muito simples, quando estamos nesta batalha por amor nada nos derruba!

O procurador do ministério público conduziu o seu "interrogatório" apelando ao sentimento, perguntando coisas que me levaram literalmente às lágrimas, fez-me descrever alguns dos episódios mais significativos destes 6 meses... e confesso que chorei ainda mais quando disse que a minha maior dor não era ela não ficar connosco, mas o facto de ela voltar à vida que tinha, sem futuro, sem apoio... (ok, já entenderam que chorei mesmo muito...)

O advogado de defesa da família biológica apenas me perguntou onde trabalhava e quanto ganhava, até aqui se pode ver que não nos iria dificultar a vida, afinal ele defendia uma pessoa disfuncional, que não amava os filhos e não se arrependia disso.

 

Depois do meu testemunho (emotivo) fiquei um pouco na sala a aguardar que se preparasse a saída da Gui pela outra porta ao mesmo tempo que a progenitora entrava pela porta onde eu íria sair, no entanto e em "off" os juízes perguntaram-me como estava, como corria a gravidez, ao que respondi que pelo menos esta eu sabia que eram 9 meses já a da Gui... eles concordaram (até porque nada nos garantia que o tribunal decidisse a nosso favor, apenas a fé nos iluminava o caminho) o juiz perguntou-me se estava a par do processo, e eu respondi com sinceridade, sabia que estávamos no debate, art. 116º, mas que daqui para a frente desconhecia como seria, foi uma conversa informal que me esclareceu e me acalmou os nervos.

 

Fui "convidada" a ficar a assistir ao que a progenitora tinha a dizer e eu recusei, fiz bem sabem? Eu não teria aguentado ouvir tantos disparates e depois ainda fazia alguma coisa de que me iria arrepender, é que o bom senso tem limites... quando saí soube que não tinham dado pela Gui, ela estava a "salvo" já fora do tribunal.

 

A senhora que ficou perto de nós aquando daquela triste cena de gritaria veio ter connosco e ofereceu-se para ser nossa testemunha caso quiséssemos apresentar queixa na polícia, o que nós não fizemos, é que para gente desta, quanto mais longe melhor... mais uma etapa... mais um passo, mais umas semanas para recuperar... e acho que nunca recuperarei!

 

A incerteza deste dia fez com que tivessemos repensado a nossa vida... colocando a hipótese de se ela ficar na instituição sem poder ser adoptada a acolhermos como "afilhada" e cuidarmos dela, mesmo sem papeis...»

 

A Mãe

 

 

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Olívia às 06:00


8 comentários

De ana santos a 31.07.2014 às 13:10

Um grande abraço...

De Olívia a 31.07.2014 às 15:10

Obrigada!

De Bruxa Mimi a 31.07.2014 às 15:03

Desculpem a minha falta de originalidade nos comentários, mas sinto sempre o mesmo, fico sempre à espera do próximo "capítulo"!

De Olívia a 31.07.2014 às 15:09

Obrigada!
Realmente é bom poder partilhar com outras pessoas esta forma de viver, confesso que gosto de escrever, mas este foi o texto mais difícil que escrevi...

De mãe de coração a 13.10.2014 às 15:05

confesso que tive de parar por algumas vezes a leitura para deixar "correr as emoções"...escrever tem de ter sido....não sei qual a palavra correcta para o descrever!!!
...admiro muito a vossa presença de espírito naquele dia, mas também sei que quando se ama um filho vale tudo e encontramos forças onde não imaginamos existirem.

De Olívia a 13.10.2014 às 15:15

É mesmo verdade, este foi um dia muito difícil...

De sandrinhabordadeira a 02.05.2016 às 14:21

Desejo que este teu cantinho seja sempre um cantinho de imenso sucesso!!

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